A versão mais recente da vacina contra a herpes-zóster, vendida sob o nome comercial de Shingrix, está ligada a um benefício inesperado: menores riscos de desenvolver doenças cardíacas. É o que revelou um novo estudo que incluiu dados de mais de 70 mil pessoas.
Embora não comprove uma relação de causalidade, o artigo publicado na revista Nature Medicine traz novos dados que podem indicar outros efeitos positivos da vacina para além da proteção contra o vírus. Evidências crescentes mostram que o mesmo imunizante está ligado a um menor risco de desenvolver Alzheimer e outros quadros de demência, por exemplo.
A herpes-zóster é uma doença causada pelo varicela-zóster (VVZ), o mesmo que causa catapora. Depois de um quadro de catapora (geralmente na infância), o vírus costuma permanecer dormente durante a vida da pessoa, mas pode ser reativado em indivíduos mais velhos ou imunossuprimidos, causando lesões na pele, dores intensas e outros sintomas – essa doença é conhecida como “cobreiro”. Felizmente, há vacina, indicada para pessoas com mais de 50 anos ou que estão no grupo de risco.
Estudos anteriores já indicavam que pessoas que tinham tomado a vacina contra a herpes-zóster apresentavam menores níveis de problemas cardíacos. Mas eles tinham uma limitação: comparavam indivíduos vacinados com indivíduos não vacinados. É uma análise que tem vieses – quem escolhe se imunizar possivelmente é mais preocupado com a própria saúde, e pode ter um estilo de vida mais saudável do que os que não escolhem se vacinar. Dessa forma, não dá para afirmar com certeza que a vacina é a causa dos benefícios.
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Experimento natural
O novo estudo optou por uma abordagem diferente, e foi possível graças a uma espécie de “experimento natural”. Em 2017, os Estados Unidos aposentaram a vacina Zostavax, feita com um vírus atenuado, e passaram a usar o imunizante Shingrix, que contém um pedacinho do vírus e é mais eficaz.
O que os cientistas fizeram foi comparar as informações de saúde de pessoas que receberam a versão “antiga” da vacina, antes de 2018, com as que tomaram a injeção mais recente. Cada um dos grupos tinha cerca de 36 mil pessoas com 60 anos ou mais.
Os resultados mostraram que as pessoas que receberam a Shingrix viveram, em média, 9% mais tempo sem doenças cardiovasculares ao longo de um período de sete anos do que aquelas que receberam a Zostavax.
Isso sugere que a versão mais recente da vacina poderia prevenir, ou ao menos adiar, o surgimento dos problemas cardíacos. O imunizante também foi associado a um risco 12% menor de acidente vascular cerebral (AVC) em homens.
No Brasil, a vacina Shingrix contra o herpes-zóster está disponível apenas na rede privada, com custos que podem chegar a R$ 2 mil (considerando as duas doses necessárias).
Ainda não se sabe o que explica essa associação. Uma hipótese é que a vacina reduza a inflamação nos tecidos e nos vasos sanguíneos. No entanto, mais estudos são necessários, inclusive para comprovar se essa associação existe em outros grupos, como pessoas mais jovens.
O Ministério da Saúde chegou a considerar a inclusão do imunizante no Plano Nacional de Imunização (PNI), o que significa que a vacina seria oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas a ideia foi posteriormente rejeitada.
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