A notícia que circulou sobre empresas de capital privado assumindo o controle de sistemas de registros médicos em países europeus carrega uma lição urgente: quando consolidamos poder demais em poucas mãos, cedemos direito de veto sobre questões de vida e morte. E frequentemente, são mãos que nunca tocaram um paciente na vida.
Imagine a seguinte situação: a empresa que guarda seus dados de saúde decide cortar custos com segurança, atualizar seu software com um sistema menos confiável ou simplesmente mudar de estratégia comercial. Quem sofre? Não a corporação — você. Seus registros médicos, seu histórico de tratamentos, suas informações mais sensíveis ficam à mercê de decisões tomadas em salas de reunião com acionistas invisíveis, a milhares de quilômetros de sua realidade.
O que muita gente não percebe é que essa vulnerabilidade não é um acidente — é uma estrutura. Quando um único fornecedor tecnológico controla a infraestrutura de saúde de milhões de pessoas, aquele fornecedor não está prestando um serviço. Está exercendo poder. E poder sem concorrência é poder sem limite. Um mercado genuinamente competitivo, onde diversos fornecedores oferecem soluções tecnológicas para registros e dados médicos, cria pontos de verificação naturais. Se uma empresa falha, outras garantem a continuidade. Se uma toma decisões ruins, é possível migrar para alternativas. Essa pluralidade é proteção.
No Brasil, onde o acesso à saúde já é desigual, o risco é ainda maior. Precisamos de sistemas de saúde públicos e robustos que funcionem com tecnologia aberta, diversificada e sob nossa soberania. Não podemos permitir que o direito à saúde se torne refém de conglomerados privados que enxergam dados como commodities. A pergunta que precisamos fazer não é mais 'quem gerencia nossos dados?' mas 'por que deixamos que fosse assim?'.
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