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Psicose não é diagnóstico isolado, mas pode ser sinal de diferentes transtornos mentais

Redação Recifes
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Psicose não é diagnóstico isolado, mas pode ser sinal de diferentes transtornos mentais
Foto: Vitaly Gariev / Pexels

Para muita gente, a palavra psicose remete ao filme de suspense e terror psicológico de mesmo nome, lançado em 1960 e dirigido pelo conhecido cineasta Alfred Hitchcock. Na saúde mental, porém, o termo tem outro significado: descreve um estado em que a pessoa pode perder o contato com a realidade e precisa de acompanhamento profissional. 

“Psicose é um estado mental em que fica comprometida a capacidade de distinguir o que está acontecendo de fato no mundo daquilo que está sendo produzido pela própria mente. A pessoa pode ouvir vozes que ninguém mais ouve e vivê-las como reais, ou desenvolver convicções como sentir-se perseguida ou vigiada”, explica Daniel Sócrates, psiquiatra e doutor em psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Um estudo publicado em 2015 na revista JAMA Psychiatry, com base em dados de 31.261 adultos de 18 países, entre eles o Brasil, mostrou que 5,8% das pessoas relataram ter tido ao menos uma experiência psicótica ao longo da vida, como alucinações ou experiências delirantes.

O que causa a psicose? 

A psicose não é um diagnóstico em si, mas um conjunto de sintomas que pode aparecer em diferentes condições. “É um pouco como febre: indica que alguma coisa está acontecendo, mas precisamos descobrir a causa”, diz Sócrates.

Ela pode aparecer no transtorno bipolar, na esquizofrenia, em depressões graves, pelo uso de substâncias como maconha, cocaína e estimulantes, na abstinência de álcool e em algumas condições clínicas e neurológicas. 

E um alerta importante: psicose não é sinônimo de loucura, não é uma sentença e não é um traço de caráter, destaca o especialista. “É uma condição que pode ter diferentes causas e, na grande maioria das situações, existe tratamento.”

Principais sintomas e impactos na rotina

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria, os principais sintomas associados aos transtornos psicóticos são delírios, alucinações e pensamento (discurso) desorganizado. Além disso, podem aparecer também comportamento motor grosseiramente desorganizado ou anormal (incluindo catatonia) e sintomas negativos (como redução da motivação e da capacidade de sentir prazer, por exemplo). 

Além dos sintomas diretamente relacionados à psicose, o quadro pode afetar diversos aspectos da vida da pessoa, segundo Tattiana ASerra, psicóloga e neuropsicóloga pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFM/USP).

“Na rotina, pode gerar dificuldade de concentração, memória e organização das tarefas diárias, alterar o sono, causar negligência na higiene pessoal e na alimentação, causar delírios e alucinações que resultam em decisões confusas e até isolamento social”, explica.

Nos relacionamentos, de acordo com a psicóloga, pode levar a interpretações equivocadas sobre as intenções dos outros e gerar desconfiança, dificultando a comunicação e favorecendo conflitos e problemas nos vínculos familiares e de amizade. Pode haver ainda queda na produtividade e na capacidade de concentração nos estudos e trabalho, dificuldade em cumprir prazos, falta ou abandono do trabalho e dos estudos, problemas como memória e raciocínio lógico.

Como funciona o diagnóstico da psicose

Não existe um exame de sangue ou de imagem que, sozinho, indique a presença de psicose. E a pessoa, justamente por conta dos sintomas do quadro, nem sempre consegue avaliar sozinha o que está acontecendo.

O diagnóstico, portanto, é clínico e leva em conta os sintomas, quando começaram, como evoluíram e quanto estão interferindo no sono, no trabalho, nos estudos e na vida cotidiana, segundo os especialistas. A conversa com familiares ou pessoas próximas também pode trazer informações importantes.

“O diagnóstico precisa ser feito por um profissional, levando em consideração o comportamento, a forma de falar e organizar os pensamentos, as emoções, informações de familiares ou amigos e fatores como uso de substâncias, falta extrema de sono ou histórico familiar”, diz ASerra. 

Tratamento inclui medicamentos e psicoterapia

O tratamento envolve controlar os sintomas psicóticos e, sempre que possível, tratar a causa. Na maior parte dos episódios psicóticos agudos, os antipsicóticos são usados para reduzir delírios, alucinações e desorganização. Esses medicamentos atuam sobre sistemas de neurotransmissão envolvidos no quadro, especialmente o sistema dopaminérgico.

“O tempo de tratamento varia conforme a causa e a evolução. Em um primeiro episódio de um transtorno psicótico primário, muitas vezes a medicação é mantida por cerca de um a dois anos após a remissão, mas essa decisão deve ser individualizada. Em quadros recorrentes, pode ser necessário um tratamento mais prolongado”, afirma Sócrates. 

Após a estabilização, segundo a neuropsicóloga, o tratamento psicológico — especialmente abordagens como a terapia cognitivo-comportamental — também é recomendado.

O episódio pode se repetir? Dá para ter uma vida normal?

Segundo os especialistas, pessoas que tiveram um episódio psicótico e recebem tratamento podem retomar atividades como estudar, trabalhar, se relacionar e tocar seus projetos. A evolução, porém, varia conforme a causa, a gravidade do quadro, a resposta ao tratamento e as características de cada pessoa.

Manter o tratamento adequado, ter uma rede de apoio formada por familiares e/ou amigos e não sentir vergonha ou culpa pelo episódio são algumas das recomendações. Além disso, de acordo com os profissionais, ter um primeiro episódio psicótico não significa necessariamente que outros acontecerão, embora algumas condições apresentem risco de recorrência.

Veja também: Psicose pós-parto: sintomas, tratamento e fatores de risco

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Artigo originalmente publicado em drauziovarella.uol.com.br
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